abril 08, 2018

A leitura serve-me principalmente de pretexto a meditações; faz que meu julgamento trabalhe e não minha memória. Pouco me interessam as conversações, se não versam assunto sério e suscetível de levar à reflexão. Entretanto, devo confessar que por sua beleza e requinte um assunto pode reter-me bem mais do que outro grave e sério. Quanto ao resto, mal presto atenção ao que dizem e ocorre-me cochilar ou, nas conversações convencionais em que se trata de coisas frívolas e insignificantes, responder como se acordasse de um sonho e dizer tolices ridículas que uma criança não diria; ou observar um silêncio descortês além de estúpido. Tenho uma maneira de pensar que me isola dos outros, e, por outro lado, sou de uma ignorância pueril acerca do que todo mundo sabe. Esses defeitos valeram-me uma reputação de bobo, que se assenta em cinco ou seis fatos reais. 


Michel de Montaigne, no ensaio "Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros"

fevereiro 04, 2018

Le démon

Hugo trabalhava (em Guernesey) das 5 da manhã ao meio-dia. Trancava-se e defendia rigorosamente seu trabalho. Ao baterem em sua porta no dia em que seu filho morreu, pedindo-lhe para descer, recusou-se com violência a abandonar sua obra. A tarefa acabou, ele foi para perto de seu filho - mas seu filho estava morto. Esta coisa é muito trágica. Ouvi-a de Marcel Schwob. Contei-a porque ela mostra, em Hugo, um demômio do trabalho que o possuía desde a aurora até a metade do dia. Talvez a palavra "inumano" - mas talvez a palavra "sobre-humano" - conviria para qualificar esse traço. Seria iníquo convocar homens ordinários para julgá-lo. Para isto seria preciso um tribunal de grandes homens, Goethe seria presidente.


Valéry acerca de Victor Hugo

janeiro 03, 2018

Para encontrar no mundo de sensações e de signos em que vivemos e pensamos as imagens primordiais, as imagens princeps, aquelas que explicam, juntos, o universo e o homem, é preciso, em cada objeto, reavivar algumas primitivas ambivalências, aumentar mais a monstruosidade das surpresas, é preciso aproximar, até que elas se toquem, a mentira e a verdade. Ver com olhos novos ainda seria aceitar a escravidão de um espetáculo. Há uma vontade maior: aquela de ver antes da visão, aquela de animar toda a alma com uma vontade de ver. Crevel viveu tantas vezes essa primitividade! Para ele, "ser espontâneo" é um conselho inerte, um conselho verbal. Tudo recomeça, tudo começa somente para aquele que sabe ser "espontaneamente espontâneo".


Bachelard, A Terra e os Devaneios da Vontade - Ensaio sobre a imaginação das forças, 2013, p.147 

dezembro 13, 2017

A Idade Média nunca se esqueceu de que qualquer coisa seria absurda, se seu significado se limitasse a sua função imediata e a sua forma fenomênica, e que todas as coisas se difundem largamente no além. Esta ideia também nos é familiar, como sensação não formulada, quando, por exemplo, o barulho da chuva  nas folhas das árvores ou a luz da lâmpada sobre a mesa, numa hora tranquila, nos dá a percepção mais profunda do que a percepção cotidiana, que serve à atividade prática. Às vezes, ela pode aparecer na forma de uma opressão morbosa que nos faz ver as coisas como impregnadas de uma ameaça pessoal ou um mistério que se deveria e não se pode conhecer. Mais frequentemente, porém, nos encherá da certeza tranquila e confortante, que também nossa existência participa daquele sentido secreto do mundo.


Huizinga, O declínio da Idade Média

setembro 26, 2017

Nada, com efeito, ameaça mais a arte do que uma consciência exclusiva de si. Ela deve permanecer indiferente ao seu poder, desatenta em impressionar ou em seduzir, misteriosamente descuidada até mesmo da obra, do mesmo modo que Orfeu relativamente a Eurídice que o segue. É bom que uma disciplina ou uma fé a afaste de sua própria essência, na qual correria o risco de se refugiar, e venha a fornecer-lhe uma coisa diferente de si mesma para amar. Daí, a grandeza das obras religiosas, mais possantes contra o tempo do que os deuses que elas serviam.


Maurice Pinguet, em Digression sur l'art du Japon, encontrado na leitura de Vida e morte da imagem, Régis Debray, pág. 68-69, ed. Vozes, 1994

fevereiro 20, 2017

The centuries are conspirators against the sanity and authority of the soul. Time and space are but physiological colors which the eye makes, but the soul is light; where it is, is day; where it was, is night.


Ralph Emerson, Self-reliance

março 01, 2016

(...) é preciso que a alma tenha plena posse de si mesma. Dessa forma, no meio do tumulto, ela cria para si mesma, se quiser, solidão. Mas, se sempre elege vilajeros especiais e corre atrás do ócio, achará em todo lugar algo com que se importunar. Segundo dizem, a um que se queixava a Sócrates de não haver tirado proveito de suas viagens, o sábio replicou: "O que aconteceu é natural, pois te levavas sempre junto a ti mesmo." Oh, como seria bom a alguns se pudessem sair de suas pessoas, e não dos lugares! Na verdade pressionam, solicitam, corrompem e aterrorizam a si mesmos. De que serve atravessar o mar e passar de cidade em cidade? Tu perguntas pelo meio de te livrares dos males que te acometem? Não; ser um outro homem. Supõe que estás em Atenas ou em Rodes. Escolhe a teu capricho qualquer outra cidade. Em que te afetarão os costumes do país? Tu levas os teus. 

Sêneca, Sobre os enganos do mundo

março 29, 2015

Perdi minha caligrafia
na última carta endereçada
aos mortos de que me alimento.

Do primeiro ao último sôfrego
em palavras vividas
dissolvo meu nome no tempo.

As palavras são poucas
para um homem e tantos destroços:
não há espaço nessas quinas.

Morro as vidas que não sou
nos tempos em que não fui:
um castigo tal sina.

Perdi minha caligrafia
o que ela dizia
e os lábios não.

novembro 07, 2014

Todos os dias ela pensa que poderei falar de Robert L., e ainda não posso. Mas naquele dia eu lhe disse que achava que um dia o faria. Que já escrevera um pouco sobre sua volta. Que tentara dizer alguma coisa sobre aquele amor. Que fora durante sua agonia que melhor conhecera aquele homem, Robert L., que percebera do que ele era feito, apenas ele, mais ninguém; que  estava falando daquele dom, daquela característica de Robert L. na terra, específica dele, e que o conduzia através dos campos, da inteligência, do amor, da leitura, da política, de todo o inefável dos dias; daquele dom só dele, mas composto da idêntica carga de desespero de todos.


Marguerite duras, A dor

março 13, 2013

Holzwege I

"Pois não foi a filosofia de Heidegger, e pode-se com justiça indagar se ela existe (como o faz Jean Beaufret), mas sim o pensar de Heidegger que contribuiu para determinar tão decisivamente a fisionomia espiritual do século XX. Este pensar tem uma qualidade de abertura que lhe é exclusiva e, para apreendê-la e indicá-la em palavras, reside no uso transitivo do verbo "pensar". Heidegger jamais pensa "sobre" alguma coisa; ele pensa alguma coisa. Nessa atividade absolutamente não contemplativa, mergulha nas profundezas, mas não se trata, nessa dimensão -da qual se poderia dizer que antes permanecia, dessa maneira e com essa precisão, pura e simplesmente não descoberta-, de descobrir ou revelar um solo último e seguro, mantendo-se nas profundezas, de abrir caminhos e colocar "pontos de referência" (Wegmarken é o título da coletânea de textos dos anos 1929-1962). Este pensar pode se propor tarefas, pode se atrelar a "problemas", e mesmo naturalmente tem sempre algo de específico com que se ocupa ou, mais precisamente,  com que se estimula; mas não se pode dizer que há um fim. Está permanentemente em atuação, e mesmo a formação dos caminhos serve antes à abertura de uma dimensão do que à realização de um fim previamente estabelecido. Os caminhos podem ser pacíficos "caminhos florestais" (Holzwege é o título de uma coletânea de ensaios dos anos 1936-1946) que, por não conduzirem a um fim estabelecido fora da floresta e "se perdem de repente no não-aberto", são incomparavelmente mais adequados para quem ama a floresta e nela se sente à vontade do que as rotas de problemas cuidadosamente traçadas onde se acotovelam as pesquisas dos especialistas em filosofia e ciências humanas. Em alemão, a metáfora dos "caminhos florestais" exprime algo muito essencial, não só que, como sugere o termo alemão, a pessoa está engajada num "caminho que não leva a lugar nenhum", do qual ela não se afasta, mas também que, como o lenhador, cujo assunto é a floresta, segue caminhos que ela mesma desbravou, e esse desbravamento faz parte do ofício tanto quanto a derrubada das árvores."

Arendt, H. Homens em tempos sombrios, São Paulo: Companhia das Letras, 2008

janeiro 20, 2013

V (Dos domingos)

 "Los seres humanos hacen la experiencia del contraste entre pequeño y grande en diferentes formas. Primero, en la infancia, se sientem como los pequeños. Después viven en confrontación permanente en las diferentes dimensiones de la comparación y la dependencia mutuas, en una confrontación caracterizada por el hecho de que son pequeños y dependientes, pero desean ser y parecer más grandes e importantes. Em ambos casos, la pequeñez y la grandeza son experimentadas como relativas, independientemente del nivel de grandeza, poder o saber que se haya alcanzado. En cambio, al interior del universo -de la totalidad- se tiene siempre la impresión de ser pequeño, estar indefeso y ser ignorante. El que dice <yo> se ve junto a sus pares frente a una amplitud que no es relativa y que por eso es <incomparable>; frente a un poder incomparable; y, tomando en cuenta todo lo que hache aprendido y conseguido explicar, también frente a un enigma incomparable. (...)
 Sin lugar a dudas se trata de una constante antropológica: los que dicen <yo> en tanto dicen <yo> se encuentram inevitablemente en relación unos con otros en los términos relativos de más grande y más pequeño, pero frente al universo y al destino tienen conciencia -a no ser que la repriman- de una grandeza e una pequeñez ya no relativas. De aquí las designaciones de <lo más alto> (porque no hay altura que se le compare) y de <lo sublime>, y también la más reciente de <lo totalmente otro> (porque no sólo es diferente de lo demás, sino también diferente de todo lo que difiere de otra cosa).
 Si se pregunta cómo repercute emocionalmente este hallarse ante una amplitud, un poder y una opacidad totalmente diferentes, incomparables (suponiendo que estos aspectos no sean reprimidos), me parece que Rudolf Otto tiene razón en hablar de un <estado de ánimo> específicamente numinoso.  Otto caracteriza lo numinoso de diferentes maneras: lo enteramente misterioso (mysterium), lo atemorizante (tremendum) que al mismo tiempo resulta atrayente (fascinans) -ambas cosas se vincularían en la vivencia del <temor reverencial> (Scheu) (Otto remite a la palabra inglesa awe, que sería una mejor expresión)-; pero entre todas sus caracterizaciones hay una central: <lo más poderoso>, <lo incomparablemente grande> ante lo cual se siente pequeño."


Tugendhat, E. Egocentricidad y mística, un estudio antropológico, Barcelona: Gedisa, 2004, pp. 133-134

dezembro 02, 2012

Da lã e da lira

"Depois ele virou-se para mim e falou:
- Alguém adivinhou que a função do poeta é despertar o futuro. É um mexicano e está hoje entre nós, aqui. Posso vê-lo avivar as pegadas do tempo como vi no porto o sopro nas velas lançando a nau no vinho do mar. O soque da luz nos panos no alto do mastro sem gávea. Homens da estirpe de Mallarmé estavam enredados na espuma e recolhiam-se entre estalos de ondas. Homens lançados no tempo em que não pode haver homem, porque o tempo e o homem se excluem, a carne e o osso e o símbolo estão buscando a resposta no futuro e no passado onde não há homem mais, mas lembranças e esperanças entre carvão, cibalho e ciber. No teu avesso, o teu começo. No teu fim, a lâmpada seca, de costas, sem pálpebras. No vagar dos retalhos, a luz tecida no piso, montar e remontar uma história. Onde estamos, estamos exilados, nosso medo indizível, na tua posse a tua perda, a perda como valor. A chave de perguntas de onde viemos o que somos para onde vamos é uma delicada mentira. A pergunta é para que serve? A quem servimos, para que servimos. Não há retorno, nascemos começados, depois apenas comensuramos entre coisas que se movem, que nos parecem regredir ou exalar e redundar, vamos amontoando nossas semelhanças sob dizeres. Tempo disso e tempo daquilo. Nascemos pela ausência, fomos e somos negados, e estamos nos retirando todo o dia um pouco para fora disso. Não conseguimos dar o fora. O mar não nos quer. Vamos nos colocando no lugar das coisas, aguardando que não nos esqueçam, ficamos trabalhando nelas nossos melhores e piores dias. Alguém nos começou e não conseguiu nos acabar. Deixou um início dificílimo pelo meio. Stefânio Mallarmé e José Hernandez. Que cilada. Me apareces com Eliot e Aureliano de Figueiredo Pinto. O ardil se completa. Dados barbudos e gregos na estância. Gostamos de relatar nossa simpatia por esses seres e cada um faz como pode e entende como deve. A sombra é a casa da luz. Sentado à tua frente está o teu começo e o teu fim. Eu não estou e nem sou. Eu mudei. Algo nos une vagamente e não é Eliot.  Eliot não fez o que eu fiz, eu mudei, eu me apaguei. Estou me fazendo deste e daquele, do olhar e do olhado, ainda posso me fazer passar por uma pessoa. Eu não fiz o que Eliot fez, eu não tenho um texto e não arco sob este peso. Eu despistei minha memória, eu me enfeiticei. Eu olho no meu passado apenas para aquilo que ainda se move. Eu estendo a mão e cego, estendo a mão e mobilio, estendo a mão e engendro. Sou do ardil, da astúcia, do lírio, da arruda, da lã e da lira. Conjugo e encarno e fundo. Patriarca e primogênito, fogo, cinza, ânsia e surto, senda, seguimento, vergonha. Agora vou te mostrar uma coisa, quero que a descreva olhando e ouvindo. Não olhe para a folha em branco. Olhe para o teu olhar."


METZ, L. S. Assim na Terra, Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed., 1995, pp. 97-98

novembro 24, 2012

Para quê?

"Quem pergunta para que serve a filosofia, já não habita nela. Não existe tempo nem saliva mais mal empregados dos que os utilizados para explicar "a utilidade da filosofia". Para aquele que já sabe, resultará óbvio, para quem não sabe, ininteligível." (Cabrera, J. 1985)

agosto 15, 2012

II

" (...)
IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.


(...)

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura)."



Mula de Deus - Hilda Hilst (1930-2004)

I

"O que é o homem? Um vaso que pode quebrar-se ao menor abalo, ao menor movimento. Não é necessária uma grande tempestade para que se destrua; bata onde bater, se dissolverá. O que é o homem? Um corpo débil e frágil, desnudo, indefeso por sua própria natureza, que tem necessidade do auxílio alheio, exposto a todos os danos do destino; um corpo que quando exerceu bem os seus músculos, é pasto de qualquer fera, é vítima de qualquer uma; composto de matéria inconsistente e mole e brilhante somente nas feições exteriores; incapaz de suportar o frio, o calor, a fadiga e, por outro lado, destinado à desagregação pela inércia da ociosidade; um corpo preocupado com seus alimentos, por cuja carência ora se enfraquece, por cujo excesso ora se rompe; um corpo angustiado e inquieto por sua conservação, provido de uma respiração precária e pouco firme, a qual um forte ruído repentino perturba; um corpo que é fonte doentia e inútil, de contínuo perigo para si mesmo. Admiramo-nos da morte neste corpo, a qual não precisa senão de um suspiro?"

Cartas Consolatórias - Sêneca