dezembro 07, 2012

XII As massas

"Não é dado a qualquer um tomar banho de multidão. Desfrutar da massa é uma arte e só poderá fazer, às custas do gênero humano, uma orgia de vitalidade, aquele a quem uma fada terá insuflado no berço o gosto pelo disfarce e a máscara, o ódio do domicílio e a paixão pela viagem. Multidão, solidão: termos iguais e permutáveis, para o poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão tampouco sabe estar estar só em meio a uma massa azafamada.
Goza o poeta desse incomparável privilégio de poder ser, a bel-prazer, ele próprio e outrem. Igual a essas almas errantes em busca de um corpo, ele entra, quando quer, na sua personagem de qualquer um. Para ele apenas, tudo está vacante; e se alguns lugares lhe parecem estar fechados, é que a seus olhos não valem a pena ser visitados.
O andarilho solitário e pensativo tira uma embriaguez singular desta universal comunhão. Quem desposa facilmente a massa conhece gozos febris, dos quais serão eternamente privados o egoísta, trancado como um cofre, e o preguiçoso, internado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta.
O que homens denominam amor é bem pequeno, restrito e frágil, se comparado a esta orgia, a esta santa prostituição da alma que se dá por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.
É bom ensinar, às vezes, aos venturosos deste mundo, mesmo que só para humilhar por um instante seu orgulho tolo, que existem venturas superiores às suas, mais amplas e refinadas. Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, decerto conhecem algo destas misteriosas embriaguezes; e, no seio da vasta família que seu gênio construiu para si, eles por vezes devem rir dos que se compadecem com sua sina tão agitada e sua vida tão casta."

Pequenos poemas em prosa [O spleen de Paris], Charles Baudelaire

dezembro 02, 2012

Da lã e da lira

"Depois ele virou-se para mim e falou:
- Alguém adivinhou que a função do poeta é despertar o futuro. É um mexicano e está hoje entre nós, aqui. Posso vê-lo avivar as pegadas do tempo como vi no porto o sopro nas velas lançando a nau no vinho do mar. O soque da luz nos panos no alto do mastro sem gávea. Homens da estirpe de Mallarmé estavam enredados na espuma e recolhiam-se entre estalos de ondas. Homens lançados no tempo em que não pode haver homem, porque o tempo e o homem se excluem, a carne e o osso e o símbolo estão buscando a resposta no futuro e no passado onde não há homem mais, mas lembranças e esperanças entre carvão, cibalho e ciber. No teu avesso, o teu começo. No teu fim, a lâmpada seca, de costas, sem pálpebras. No vagar dos retalhos, a luz tecida no piso, montar e remontar uma história. Onde estamos, estamos exilados, nosso medo indizível, na tua posse a tua perda, a perda como valor. A chave de perguntas de onde viemos o que somos para onde vamos é uma delicada mentira. A pergunta é para que serve? A quem servimos, para que servimos. Não há retorno, nascemos começados, depois apenas comensuramos entre coisas que se movem, que nos parecem regredir ou exalar e redundar, vamos amontoando nossas semelhanças sob dizeres. Tempo disso e tempo daquilo. Nascemos pela ausência, fomos e somos negados, e estamos nos retirando todo o dia um pouco para fora disso. Não conseguimos dar o fora. O mar não nos quer. Vamos nos colocando no lugar das coisas, aguardando que não nos esqueçam, ficamos trabalhando nelas nossos melhores e piores dias. Alguém nos começou e não conseguiu nos acabar. Deixou um início dificílimo pelo meio. Stefânio Mallarmé e José Hernandez. Que cilada. Me apareces com Eliot e Aureliano de Figueiredo Pinto. O ardil se completa. Dados barbudos e gregos na estância. Gostamos de relatar nossa simpatia por esses seres e cada um faz como pode e entende como deve. A sombra é a casa da luz. Sentado à tua frente está o teu começo e o teu fim. Eu não estou e nem sou. Eu mudei. Algo nos une vagamente e não é Eliot.  Eliot não fez o que eu fiz, eu mudei, eu me apaguei. Estou me fazendo deste e daquele, do olhar e do olhado, ainda posso me fazer passar por uma pessoa. Eu não fiz o que Eliot fez, eu não tenho um texto e não arco sob este peso. Eu despistei minha memória, eu me enfeiticei. Eu olho no meu passado apenas para aquilo que ainda se move. Eu estendo a mão e cego, estendo a mão e mobilio, estendo a mão e engendro. Sou do ardil, da astúcia, do lírio, da arruda, da lã e da lira. Conjugo e encarno e fundo. Patriarca e primogênito, fogo, cinza, ânsia e surto, senda, seguimento, vergonha. Agora vou te mostrar uma coisa, quero que a descreva olhando e ouvindo. Não olhe para a folha em branco. Olhe para o teu olhar."


METZ, L. S. Assim na Terra, Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed., 1995, pp. 97-98